As tarefas do amor - da paixão à maturidade

Por Alê Esclapes1

Etimologia da palavra “amor”: A palavra “amor” possui como referência comum a palavra latina “amore”, o que do ponto de vista da investigação, não ajuda muito. Acompanhando Zimerman (2010) será utilizado nesse trabalho a etimologia de amor como sendo “a” (contra) e “mors” (morte), ou seja, aquilo que se opõe a morte.

Essa etimologia coloca algumas reflexões importantes, como por exemplo, o que seria a morte, morte de quem e do que, e como seria essa manifestação do “a-mors”, como seria a concretude do exercício dessa tarefa chamada “amar”. Outro desenvolvimento seria observar que para cada entendimento sobre o que seria a vida, o viver, teríamos o seu avesso, a morte - vida/morte em um par inseparável, assim como o conceito de amor não está separado do conceito de morte. Outro desenvolvimento ainda seria analisar a morte no indivíduo e no coletivo.

Vida/morte na psicanálise:

É interessante observar que para cada grande autor da psicanálise, em função do seu entendimento da realidade psíquica, poderia se entender um par vida/morte. Freud talvez foi um dos autores que mais reformulou suas teorias a respeito desse par. Desde de seu entendimento da sexualidade como a raiz da neurose, suas teorias sobre o amor se versaram através da sexualidade humana. Sua última formulação foi o par Eros/Thanatos, também chamadas pulsões de vida e de morte. Observa-se aqui o uso da palavra Eros e não outras disponíveis na língua grega, como por exemplo, Ágape. Freud sempre foi incisivo sobre a questão do prazer como “o” mediador das relações humanas.

Melanie Klein já na sua maturidade como teórica e analista postula o par inveja/gratidão como o grande representante do par vida/morte. Outra forma de entender a inveja seria entendê-la como o horror a dependência que temos do outro, sendo a gratidão ao outro o seu antidoto.

Donald Winnicott nos propõe a devoção materna como o protótipo do amor, pois esse seria o responsável pelo desenvolvimento sadio do seu bebê. Vários são os elementos aqui envolvidos, como a capacidade da mãe de se comunicar silenciosamente com bebê, ou seja, sua capacidade de empatia, de se presentificar quando seu bebê está em condições de cria-la, de suportar (“holding”) e prover um ambiente facilitador do desenvolvimento das potencialidades criativas de seu filho(a).

Bion nos chama atenção para a verdade que nos cerca – Édipo não teria feridos seus olhos como uma “castração” como sugere Freud, mas porque a verdade lhe era insuportável. A verdade é entendida aqui como simplesmente “aquilo que se é” e não “aquilo que se deveria ser”, ou um representante de uma “verdade última”. A verdade é aquilo que se é a cada instante. Este “sendo” a cada instante possui diversas consequências, mas o que interessa aqui é que não se é “em si”, mas pelo outro. Uma das tarefas ontológicas do ser humano é o “ser no outro”, e a morte seria a não concretização dessa tarefa. A verdade é para Bion a condição sine qua non dessa travessia.

Podem-se reunir aqui alguns elementos dessa tarefa que é o amor para a psicanálise a partir desses autores: prazer, gratidão, devoção e verdade. Talvez esses elementos estejam presentes no percurso entre a paixão e a maturidade de uma relação, e que a quantidade desses ingredientes variam em com o tempo.

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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