O caso Elisabeth von R.

Por Ale Esclapes¹

No artigo anterior eu discuti o modelo catártico, a questão da sugestão e inferências (caso Emmy von N.). Nesse caso quero me aprofundar na questão da inferência. Mas antes, vamos falar um pouco sobre o caso clínico em si, que é considerado o mais próximo da psicanálise dos apresentados em Estudos sobre Histeria. 

 

 

A paciente segundo Freud apresentava sintomas de conversão histérica, como dores nas pernas, bem como delírios de perseguição. Ela adoeceu em dois momentos diferentes: na morte do pai, da qual era muito próxima e mais tarde na morte da irmã. Nas investigações Freud conclui que Elisabeth adoeceu no primeiro momento em função de uma divisão de seus interesses entre um caso amoroso e os cuidados com o pai enfermo. No caso da morte da irmã, deveu-se a uma paixão secreta pelo cunhado.

Do ponto de vista técnico o caso apresenta uma série de avanços comparados a Emmy von N. O abandono da hipnose, uma vez que a paciente se mostrou não hipnotizável, um avanço um pouco maior da técnica da livre associação, mas Freud ainda utilizava a mão na testa da paciente. Não se sabe exatamente quando ele deixou de usar essa técnica. A teoria de pano de fundo continua a mesma que da comunicação preliminar, o que faz com que a associação livre não seja tão livre, pois visa investigar a causa dos sintomas. A questão da memória apresentada no caso Emmy também se encontra presente nesse caso. Mas eu gostaria agora de aprofundar na questão da inferência.

Para isso vamos examinar dois trechos do caso:

“Respondeu-me que evitara cuidadosamente pensar nela, mas acreditava que desde o início a mãe havia esperado o pior. Suas lembranças passaram então à chegada a Viena, à impressão que lhes causaram os parentes que as esperavam, à curta viagem de Viena até a estação de veraneio próxima onde morava a irmã, à chegada à noite, à caminhada apressada pelo jardim até a porta da casa ajardinada, ao silêncio que reinava em seu interior e à escuridão opressiva. Lembrou que o cunhado não estava lá para recebê-las e que ficaram diante da cama, olhando para a irmã morta. Naquele momento de terrível certeza de que a irmã amada estava morta sem ter-lhes dito adeus, e sem que ela lhe tivesse aliviado os últimos dias com seus cuidados, naquele exato momento outro pensamento atravessou a mente de Elisabeth, e agora se impunha de maneira irresistível a ela mais uma vez, como um relâmpago nas trevas: “Agora ele está livre novamente e posso ser sua esposa.”

“Tudo ficou claro então. Os esforços do analista foram ricamente recompensados. Os conceitos de “rechaço” de uma representação incompatível, da gênese dos sintomas histéricos através da conversão de excitações psíquicas em algo físico e da formação de um grupo psíquico separado, através do ato de vontade que conduziu ao rechaço – todas essas coisas, naquele momento, apareceram diante de meus olhos de forma concreta. Assim, e de nenhuma outra maneira, as coisas haviam ocorrido nesse caso.”

Freud nesse texto tenta fazer a conexão entre os sintomas e o algum trauma ou pensamento que a paciente não consiga conciliar consigo mesma (aqui mais próximo a Janet do que de Breuer). Mas examinando mais atentamente o texto, temos outras possibilidades além da apresentada por Freud. Primeiro, uma opinião muito pessoal, não está claro para mim que a paciente disse à Freud “Agora ele está livre novamente e posso ser sua esposa.” O texto é dúbio a esse respeito: Freud acreditou que esse pensamento passou pela mente da paciente ou foi a paciente que lhe disse que esse pensamento lhe passou a cabeça? Se não foi dito isso diretamente à Freud, foi inferência do mesmo.

Caso isso tenha sido dito pela paciente, um fator ficou de fora: a morte da irmã da paciente. Não poderia Elisabeth se sentir responsável pelo morte da irmã, responsabilidade essa reforçada pelo desejo pelo cunhado? Essa dimensão não foi abordada por Freud. Se de um lado não sabemos se o que o paciente fala é verdade, de outro, caso consideremos seu discurso, precisamos considerar todas as possibilidades, mas parece que Freud nesse caso já sabia da resposta que estava procurando e quando a achou, parou de investigar, ainda que a seu modo de investigação. Esses são os duplos riscos da inferência: não ouvir o paciente e não investigar.

Segundo a filha de Elisabeth, a mãe se lembra de Freud como o médico que tentou convencê-la que ela estava apaixonada pelo cunhado.



¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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