O caso Anna O.

Por Ale Esclapes¹

O caso "Anna O" ao contrário do que muitos pensam é um caso clínico de Breuer e não de Freud. Ela foi atendida entre 1881 e 1882, cerca de 14 anos antes da publicação de "Estudos sobre Histeria". Alguns sintomas chamam a atenção nesse caso clínico - delírios, fantasias de perseguição, reviver dramas exatamente um ano depois, nos mesmo dias em que ocorreram (jamais narrado em nenhum outro caso clínico em psicanálise), etc.

Observa-se aqui a sombra de Charcot e a sua Grande Histeria - muito provavelmente hoje Anna O não seria considerada um caso de histeria clássico.

Breuer vai propor que as causas são o hábito de Anna O devanear, o que chamou de “se teatro particular” e a morte do pai, o qual ela teve que cuidar por um certo período. O tratamento clássico consistia em investigar cada sintoma da paciente, sempre sob hipnose, e buscar suas causas, para que a paciente pudesse ab-reagir ao trauma do passado.

Nesse tratamento porém outros elementos técnicos entraram em cena. A paciente entrava sempre em um estado delirante à noite, e Breuer se pôs a ouvi-la nesses episódios, todos os dias. A paciente apresentava melhoras em relação aos seus sintomas delirantes, até o dia seguinte, quando os mesmos retornavam. Anna chamou esse processo de “limpeza da chaminé” e Breuer de “talking cure”. Esse é considerado o primeiro caso de “cura pela palavra” na nascendi psicanálise.

Duas questões eu acho importante levantar nesse caso. Primeiro é a noção de que o que é produzido no delírio são palavras, ou melhor, que no delírio as palavras são usadas da mesma forma que fora dele. Por exemplo, se digo “que piada ótima, estou morrendo de rir”, imagino que ninguém vá chamar o SAMU. Mas o uso da palavra na psicose não é esse - ele é concreto. Logo, o que se passava entre Bruer e Anna O. não era uma conversa, um desabafo, era um outra coisa. Se uma pessoa diz que vai no analista desabafar e isso resolve muita coisa, sempre me pergunto: “o que é resolvido?”. Esse conceito está encravado no imaginário quando se fala em um processo terapêutico.

Outra questão que não é posta em primeiro por Breuer nesse caso é a disponibilidade do próprio Breuer em ouvir a sua paciente, noite após noite, ainda que não entendesse bem o que fazer com os delírios de sua paciente. Talvez o ouvir e não o desabafar seja algo aqui não devidamente estudado. Para Breuer o” falar” seria uma descarga de energia represada, por isso a ênfase na fala e não no ato de ouvir. No modelo energético não existe espaço para o “sentir-se” ouvido, não estar sozinho no desespero, etc. como um elemento do tratamento. O objetivo é sempre a ab-reação. Por isso é importante saber que todo modelo possui possibilidades e limites. 



¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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