É melhor ser alegre do que ser feliz

Por Ale Esclapes1

É interessante como a maioria dos pacientes que chegam ao consultório vêm com alguma demanda de felicidade, quer seja de forma declarada ou implícita. Comecei a desconfiar dessa tal felicidade, e me perguntar se ela era parte da solução ou do problema, pois sua busca sempre vinha acompanhada de muito sofrimento e na maioria dos casos, depressão.  Vou dividir com você aqui nesse artigo a minha experiência com esse assunto, essa tal “felicidade” e porque cheguei na conclusão que é melhor ser alegre que ser feliz.

 

Ao questionar meus pacientes e meus amigos sobre o que é felicidade, obtive as mais diversas respostas, tais como: ter um emprego que satisfaça, ter uma família, poder viajar sempre que desejar, não passar por problemas financeiros, ter um corpo legal, etc.

Para algumas ainda pessoas a felicidade é uma mistura de tudo isso com harmonia, equilibro, paz e tranquilidade. À primeira vista, não consegui apurar um padrão do que seria essa tal felicidade, mas logo cheguei a alguns pontos comuns. Primeiro a felicidade sempre estava associada a alguma coisa que a pessoa não tinha, e caso ela conseguisse, seria feliz.

A segunda era que a felicidade estava sempre no futuro. Um paradoxo, é que quando eu perguntava se a pessoa era feliz, algumas apesar de dizer que não possuíam o que acreditavam ser a chave da felicidade, se declararam felizes, mas bem poucos.

Tenho uma lembrança de infância associada a pessoas que ganham na loteria. Recordo-me que quando o repórter entrevistava um desses ganhadores e lhes perguntavam o que iam fazer com o dinheiro, a maioria dizia que iria comprar uma fazenda. Não muito tempo depois o repórter entrevistava novamente essa pessoa e ela tinha realmente comprado uma fazenda, mas já a tinha levado a falência e retornado senão ao ponto onde estavam, se encontravam agora um pouco mais pobres. Você deve estar se perguntado qual a relação entre isso e o tema da felicidade. Acredito que esses ganhadores associavam uma fazenda a uma vida mais fácil, dentro de um antigo imaginário brasileiro do coronelismo – é melhor ser o Coronel da conversa. Por trás desses exemplos consegui extrair que a visão de felicidade de uma pessoa está em função do seu gosto pessoal, do quanto os seus desejos podem ser realizados e de fatores sociais.

O que agrada a um bebê, ele engole, o que lhe desagrada, ele cospe. Essa é uma das primeiras experiencias qualitativas do ser humano e que nos marca pelo resta da vida. Tendemos a nos identificar com o que é bom e considerar aquilo que ficou fora de nós como ruim. Uma outra experiência qualitativa é o quanto conseguimos que outras pessoas realizem os nossos desejos – adoramos, por exemplo, ser servidos. E por fim, queremos ser “amados” por outras pessoas, queremos que elas saibam o quanto somos importantes e nos reconheçam por isso, tanto ao nível pessoal quanto social. Esses três elementos – o que nos agrada ao paladar, sermos servidos e reconhecimento social geralmente são os ingredientes que compõe a visão de felicidade de muitos. Nunca conheci alguém que dissesse que sua visão de felicidade fosse trabalhar em uma zona de combate em uma país de conflito ou em um hospital público, ganhando pouco, comendo qualquer coisa, sem nenhum reconhecimento.

Mas talvez a forma mais perversa que o sujeito pode tratar o seu sonho de felicidade é quando inclui nele o seu sintoma. Dois exemplos poderão explicar melhor o que quero dizer. Imaginemos que no sonho de felicidade de Maria está incluso uma vida com Joaquim, seu amante por quase vinte anos, o qual ela espera que se separe de sua esposa desde que Maria conheceu Joaquim. Ela sonha que possam viver uma vida juntos e felizes. Um outro exemplo mais radical: qual seria o sonho de felicidade de um viciado em crack? Se você respondeu “deixar as drogas” isso pode ser o sonho que você acredita que ele deveria ter. Muito provavelmente o sonho de felicidade de um drogado inclua acesso irrestrito a sua droga.

Comecei a observar que a visão das pessoas sobre a felicidade muitas vezes era idealizada, irreal, pois os parâmetros que a construíam (gosto pessoal, ser servido e reconhecimento social) eram muito infantis, sem contar que muitas vezes incluía seus próprios sintomas. O problema é que a realidade não segue os mesmos parâmetros da felicidade, ela é o que é, simplesmente sendo. Um exemplo prático: às vezes o remédio tem um gosto amargo, mas o sujeito precisa dele; às vezes uma pessoa precisa de uma dieta muito restritiva e isso pode ser muito incômodo. Não existe relação entre o que uma pessoa precisa e seu gosto pessoal. Outro dado da realidade: as pessoas não existem para nos servir, não importa quanto paguemos. Podemos pagar por um serviço prestado, mas não pela servidão de alguém. Ainda que paguemos por tudo o que gostaríamos de ter, o tédio inevitavelmente bateria a nossa porta. Por mais que desejemos o reconhecimento dos pares, em algum nível será preciso uma negociação de desejos para que isso seja possível. Um jogador de futebol pode ter um baita reconhecimento, mas esse tende a diminuir com o tempo. A realidade não tem nenhum compromisso com os nossos sonhos.  

Esse inevitável encontro entre o sonho da felicidade e a realidade gera sofrimento e na maioria das vezes um quadro depressivo. Diante disso a pessoa tem três opões: a) abandonar o sonho b) se apegar ao sonho c) negociar com a realidade algo possível. Simplesmente abandonar um sonho de felicidade, uma visão futura de si mesmo, pode fazer com que o mundo fique muito sem graça e vazio. Apegar-se ao sonho por sua vez pode levar a casos graves de depressão – é como o enlutado que não consegue deixar de pensar na morte do ente querido e vai vagarosamente perdendo o tesão pelo mundo. Negociar alguma coisa e transformá-lo em planejamento exequível parece ser uma solução menos patológica, de um pouco mais de bom senso. Mas ela só é possível se a pessoa souber transformar sonhos em realidade, correr atrás dos seus desejos, e ao mesmo tempo, deixar partir os sonhos irrealizáveis – sabedoria aqui é tudo!

Nem preciso dizer que as duas primeiras opções são as mais comuns – uma vida sem muito sentido ou um sujeito deprimido. Como o ser humano tende a fugir da dor e do sofrimento, podemos nos perguntar como as pessoas fogem de uma vida sem sentido ou da depressão. A forma mais comum é com medicamentos – o Brasil é o campeão mundial de consumo per capta de remédios psiquiátricos no mundo. Mas existem formas mais sofisticadas, mas não menos danosas de lidar com a situação. O princípio é muito simples: o da compensação. Para uma vida vazia ou deprimida uma boa fuga é o excesso: no trabalho, na academia, nas redes sociais, nas adições. O trabalho pode ser usado para tentar dar sentido a uma vida; sempre existe a última moda no ramo de administração das empresas, aquela coisa que se você atingir será um funcionário exemplar e reconhecido por todos. As adições, ou seja, tudo aquilo que é compulsivo e que não podemos escolher se vamos fazer ou não, entra como uma forma de compensação: das drogas ao videogame, das festas intermináveis à academia, qualquer coisa pode ser uma adição. As redes sociais parecem ser uma forma mais sofisticada, pois nela podemos criar uma identidade completamente diferente da nossa, postar apenas aquilo que se encaixa em nosso padrão de felicidade, enfim, pode ser um mundo à parte, ainda que tenha os seus percalços. O consumo desenfreado na busca quer seja de satisfação momentânea ou de se identificar com uma marca são uma das características do nosso capitalismo.

Nessa hora também corremos um sério risco de projetamos nossa visão de felicidade onde ela não existe e perguntamos para pessoas, meios de comunicação, política, etc. “como afinal posso ser feliz, já que o que tentei até agora não deu certo”. Não restarão revistas (Você S.A., Vida Simples), livros (autoajuda, alta performance no trabalho, etc...), programas de TV, parentes, etc... todos estão aí para lhe ajudar a saber como ser feliz. Nem precisa dizer que nada disso funciona.  Não estou dizendo que o trabalho, a academia, o videogame, ou o capitalismo, as revistas, programas de TV,  são maus em si mesmo. O que estou chamando a atenção é para o uso que o sujeito deprimido ou incapacitado de lutar por uma vida com sentido faz desses elementos. É no excesso que o sujeito deprimido pode se abrigar momentaneamente do seu sofrimento.

Tudo acaba se tornando uma espiral de sofrimento: um sofrimento levando a sonho de felicidade, que leva a uma nova desilusão, e depois a mais um sofrimento, e novamente a uma nova visão de felicidade, agora maior que a anterior, e a um sofrimento maior ainda. Interessante notar que aquilo que começou como o desenho de uma visão equivocada de um projeto de mundo que muitos chamam de felicidade é na verdade uma teia que aos poucos vai prendendo o sujeito numa rede de dor e sofrimento. A fuga do sofrimento por sua vez faz trazer mais sofrimento e a pessoa vai ficando soterrada de lixo emocional. Uma tarefa importante de qualquer análise é retirar esse lixo todo, desde que o sujeito permita. É inimaginável a quantidade de pessoas que se agarram ao seu sofrimento – talvez para não sentir a dor original. Por isso todo processo analítico invariavelmente esbarra em muita dor, ainda que não se resuma a somente isso – muitas vezes também é coroado de muita alegria. A dor é inevitável, já o sofrimento é opcional.

A alegria por sua vez acontece no aqui e no agora, não está ligada a nenhuma nova realização, ou seja, não está localizada nem no passado e nem no futuro. É um sentimento que acompanha experiências de satisfação, podendo até mesmo acompanhar experiências de insatisfação. É um estado emocional de excitação e contentamento. Nesse ponto tenho duas constatações: a primeira é que nós psicanalistas temos um vasto vocabulário para sentimentos ruins, mas muito pouco para falar de boas experiências e a segunda é que percebo que as pessoas hoje em dia sentem muito pouco alegria em suas vidas, ou pelo menos relatam isso muito pouco. Observa-se que é mais fácil duas pessoas que se encontram reclamarem de alguma coisa que dividirem um momento de alegria. Não gostaria nesse ponto que se misturasse o conceito de alegria e contentamento com o de satisfação no sentido de obtenção de prazer. Acho que não emoções bem separadas. Posso ficar alegre porque no rádio toca uma música que não ouvia desde a adolescência, posso ficar alegre com um céu bonito quando abro a janela de manhã, em encontrar um colega, em ver um por de sol, etc. Agora posso me dedicar a pergunta do porquê as pessoas não sentem tanta alegria hoje em dia.

A primeira resposta é que parecem tão ocupadas em serem felizes que não podem perceber os momentos de alegria que as acompanham diariamente. Quem tem tempo de se emocionar com um céu estrelado e sentir contentamento e alegria pelo momento vivido se estão ocupadas demais com seus “projetos de felicidade”? Nesse sentido a felicidade é um veneno para sentirmos alegria.

Outro motivo está relacionado as experiências de satisfação que nos permitem sentir alegria, ainda que não precisemos delas para sermos alegres. Elas exigem uma presença no aqui e agora: como posso sentir prazer e satisfação em um almoço acompanhando as redes sociais ao mesmo tempo? Nessa hora, imagino, o desfrute possível com a comida fica comprometido, e a pessoa não saboreia sua refeição, apenas a devora.

O narcisismo desenfreado dos nossos dias também é outro obstáculo para sentirmos alegria. Este se sente separado dos demais seres humanos, e, portanto, não consegue suportar a ideia da interdependência entre os seres e tampouco sentir gratidão. Se estou em uma aula, por exemplo, não preciso sentir gratidão pelo professor pois ele não faz mais que obrigação em me dar uma aula e além do mais está ganhando para isso – esse é o pensamento do narcisista, logo ele não consegue acessar o sentimento de gratidão, que é a porta para o sentimento de alegria e contentamento.

Ao contrário da felicidade que é um estado imaginativo permanente, a alegria é impermanente e real. Isso significa que a alegria que senti por comer uma comida gostosa, ou de ouvir a música que havia tempos que não ouvia, ou pelo pôr do sol, vai acabar, podendo na maioria das vezes ser muito breves. A alegria é passageira, é como o beija flor que visita o nosso jardim – logo ele parte para outra flor e outro jardim. Ela não é fiel a uma única pessoa. Caso não saibamos deixa-la partir ela pode se transformar em um projeto de felicidade, com as consequências já mencionadas nesse artigo. A felicidade como a vejo implica um retorno à criança, ao bebê, ao útero, e isso não é mais possível. Já fomos expulsos do Éden, e um novo paraíso não está no passado, mas no futuro, não se chama mais Éden. O futuro não é o Éden reeditado, é outra coisa.

Estar presente no aqui e no agora, não estar preocupado com sonhos de felicidades infantis, poder sentir experiências de satisfação e a gratidão são o terreno em que a alegria e o contentamento podem germinar. Se a felicidade está sempre acompanhada de sofrimento, angústia e depressão, a alegria sempre está acompanhada de gratidão. Fica aqui o convite de estar mais presente, com seus amigos e familiares, em cada ato que pratica, nos cinco sentidos. De falar de coisas boas antes das ruins, de agradecer antes de pedir. Sem apego a nenhuma experiência ou sonho. Essas, creio eu, são as pré-condições para que se possa perceber as alegrias que nos pedem passagem todos os dias.

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias. 

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Comentários

  • Convidado (Eduardo Guimarães)

    Gostei do texto. É bem real segundo minha experiência de consultório. Muito importante é o que você fala do narcisismo. Há uma epidemia. Daí nada da gratidão salvadora. Você não acha que esse narcisismo todo não está vindo de falta de maternagem? Seio bom? Grande abraço

  • Convidado (Sueli)

    Excelente reflexão. Se todos pudessem enxergar para além de si mesmos, com certeza nosso mundo estaria em outra logica e mais saudável!

  • Convidado (Ary)

    Excelente artigo, Alexandre.

    Keep up the good woek!