A memória e o inconsciente

Por Alê Esclapes1

Em psicanálise o conceito de inconsciente esta intrinsecamente ligado ao conceito de memória. A repressão é o que acaba por organizar essa ligação. Em um dos mais importantes artigos sobre técnica já escritos, Freud trabalha bem esse tema em Recordar, Repetir e Elaborar, de 1914.

Mas a memória não é composta apenas de material reprimido. No “projeto para uma psicologia científica” de 1895 Freud nos dá uma ideia de memória como armazenamento – a informação estaria guardada a espera de ser reutilizada pelo aparelho psíquico, e daí surgiram conceitos como facilitação e barreira de contato.

 

Bion seguindo Freud vai nos dizer que a memória é o desejo olhando para trás. Quando lembramos de algo, fazemos uma seleção de dados afim de construir o que chamamos de memória. Daí sua recomendação técnica – que o analista trabalhe sem memória e sem desejo – o tecnicamente seria a mesma coisa.

Mas vamos para um exemplo mais simples. Sabe aquela praça enorme que você brincava quando era criança?  Lembra daquele amigo que não vê faz 20 anos? E que quando você volta aquela praça e revê seu amigo toma um susto – no caso da praça era nem é tão grande assim, e seu amigo agora é careca e barrigudo? O que será que acontece nesses casos? Será que somos traídos pela memória?

Talvez não, talvez precisamos ver que a memória precise de atualização. É um conceito muito parecido com o de recordar no artigo já citado de Freud, mas de uma forma muito mais ampla. Nossa memória simplesmente não se atualiza sem estímulos esternos. Nossas lembranças ficam congeladas, imóveis, guardadinhas, independente de princípios de prazer, repressões, etc ...

Qual seria a utilidade disso? Do ponto de vista técnico ampliar a discussão sobre o recordar, e quem sabe universalizar esse conceito para outras idades do desenvolvimento humano que não apenas a primeira infância, sem claro desmerecer a importância dessa fase. Do ponto de vista pessoal, é saber que sem cultivar nossos relacionamentos eles podem estar sendo condenados a um congelamento, e que em caso de descongelamento, não sobrevivam a essa criogenia.

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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