Repressão à Histeria

Por Ale Esclapes¹

Antes de adentrarmos nos desenvolvimentos da histeria no século XIX, seria interessante analisarmos alguns aspectos sociais e políticos. No século XVIII na Inglaterra, no período Georgiano, criou-se uma cultura do aristocrata sensível.

De uma forma muito simplificada, era bem visto o aristocrata bem educado, refinado e sensível. Muitos escreveram acerca de suas “doenças dos nervos”, quase um símbolo de requinte. Mas dois fatores vão mudar esse cenário.

O primeiro deles é a Revolução Francesa - muitas dinastias da Europa temiam que o mesmo ocorresse em outros países. Uma enorme guinada conservadora surge nesse momento. Na França Napoleão vai reatar vínculos com o Vaticano e na Inglaterra a Rainha Vitória vai impor um recrudescimento dos costumes. A mulher passa a ser vista como inferior, e a vida social é destinada aos homens.

O segundo deles é a ascensão da burguesia. Tudo o que um burguês não precisa ser é um homem sensível com “doença nos nervos”. Valores ditos masculinos passam a ser supervalorizados ao mesmo tempo que são identificados com o homem. A mulher é identificada ao feminino e passa a ser tratada como um ser inferior.

A produção médica é regulada pelo Estado, e explicações hipocráticas sobre a histeria passam ser a norma. Qualquer médico que, por exemplo, dissesse que um homem pode sofrer de histeria, era afastado de suas funções. Apenas a partir do final do século XIX esse clima começa a se modificar. Charcot, por exemplo, consegue escrever sobre a histeria masculina e em Viena também aparecem escritos sobre o tema.

Um dos fatores que permitiram essa abertura foi o aparecimento de muitos “doentes dos nervos” em função da industrialização e da construção de ferrovias. Já não era possível dizer que os homens não eram suscetíveis às neuroses. Uma nova disputa se instala entre os doentes e as empresas de seguros com os médicos no meio. Nesse momento Paris com Charcot se opõe a Viena. O primeiro com sua teoria do trauma e da incubação vai dizer que o doente já é predisposto à doença enquanto Viena vai colocar que não existe tal predisposição. É nesse cenário que Freud vai fazer sua primeira leitura sobre o tema em Viena, mas isso é tema para outro vídeo.  



¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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