Pierre Janet

Por Ale Esclapes¹

Como vimos em Herbart, as representações que são expulsas da consciência formam um outro núcleo. Pierre Janet vai chamar de subconsciente as representações que não estão acessíveis à consciência. Através do estudo de seus pacientes, ele chega a algumas conclusões interessantes: 

 

 

1. No subconsciente dos pacientes histéricos existem ideias fixas, que acabam por ter um desenvolvimento separado da consciência, às vezes formando personalidades inteiras. Essas ideias fixas acabam por se manifestar na forma de sintomas;

2. Existem vários níveis no subconsciente, várias camadas. Em um de seus pacientes ele descobriu uma personalidade dentro da outra;

3. As ideias fixas são ao mesmo tempo causa e efeito de fraquezas mentais;

4. Inspirado em Briquet ele vai dizer que as crises são um encenamento das ideias fixas;

5. As ideias fixas são subconscientes na histeria e conscientes na neurose obsessiva;

6. A terapia deve se concentrar nas ideias fixas. Elas devem ser analisadas e depois é preciso fazer uma síntese.


Em estudos posteriores Janet vai propor uma análise baseada nas funções psicológicas, que formam uma pirâmide.

A mais evoluída delas é a função da realidade, cuja inspiração é a obra de Bergson. Essa capacidade depende de duas operações - agir sobre a realidade, modificando-a, a partir de todas as negociações necessárias em termos de possibilidades pessoais, sociais, etc.. e a atenção, que é o ato de perceber a realidade externa e interna. A combinação de ambas operações ele chamou de presentificação, ou seja, a possibilidade de se formar na mente o momento presente. A tendência da mente é estar no passado, no futuro, e nunca no presente. É preciso esforço para estar no aqui e agora.  

O próximo nível logo abaixo é o de assuntos não importantes ou interessantes, os automáticos, etc.

Logo abaixo deste está o da imaginação, do sonho, do devaneio, etc.

O nível seguinte é o das reações emocionais e no mais baixo nível o das descargas motoras sem sentido.

A partir daí ele vai propor o coeficiente de realidade, que é a tensão necessária para realização de uma síntese psicológica e que leva em consideração quantos elementos são sintetizados nessa ação.

Na neurose a primeira capacidade perdida é o da presentificação, que é substituída por outras mais simples.

Janet vai tornando o seu sistema cada vez mais complexo, e fugiria do escopo desse vídeo. O importante é que a noção de um outro estado de mente onde ideias se desenvolvem fora da consciência já estava estabelecido quando da publicação do Estudos sobre Histeria. Vamos ver também vários outros elementos do pensamento de Janet aparecer na obra de Freud, com outra ênfase, mas as vezes com uso muito semelhante, como princípio de realidade, construção em análise, e até mesmo o próprio conceito de Inconsciente.

 

 

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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