Psicoterapia da Histeria

Por Ale Esclapes¹

Nesse artigo vou discutir as mudanças técnicas empregadas por Freud ao longo da obra "Estudos sobre Histeria" e fazer uma análise da parte final do livro chamada “A psicoterapia da Histeria” escrita por Freud. O modelo catártico tem um elemento temporal muito forte que entrelaça um trauma a um sintoma. Isso faz com que a técnica consista numa investigação de causas. No início a hipnose, bem como os poderes que se imaginava que essa tivesse desde de Mesmer, ou seja, ampliação da consciência o que permitiria lembrar de fatos recalcados.

O problema é que a teoria não bate com a realidade e a hipnose não tem esse poder, bem como nem todo mundo é hipnotizável. Houve por parte de Freud um abandono da técnica hipnótica, não por ele ser uma mal hipnotizador, mas porque a hipnose não pode entregar o que Breuer e Freud pretendiam.

Freud logo no primeiro caso percebe a questão que nem todos são hipnotizáveis e substitui a técnica da hipnose pela colocação das mãos na testa da paciente logo no primeiro caso do livro, mas acredita que os resultados são idênticos, ou seja, que emergem do discurso da paciente lembrança de fatos. Esse fator crucial não muda durante todo o livro.

Na parte final do livro, Freud vai chamar atenção para um fenômeno que denominou resistência. Para ele quando a pessoa chegava perto daquilo que ela se esforçou para esquecer, surgia uma resistência em lembrá-la, e como o tratamento consistia em lembrar de fatos do passado, ao próprio tratamento.

O conceito como está posto se torna um paradoxo - se o paciente disser que não se lembra, pode ser verdade, mas pode ser resistência. Caberá ao clínico decidir se é uma coisa ou outra, e isso do ponto de vista ético, acaba sendo bastante complicado, pois se o clínico estiver enganado sobre suas hipóteses e o paciente naturalmente recusá-las, o clínico pode dobrar o engano e interpretar a recusa como resistência.

Quando no entrelace entre teoria e técnica parece que o imbróglio não iria se resolver - a saber: como determinar se uma lembrança é verdadeira ou não - eis que um conceito fundamental da psicanálise visita Freud: a transferência. Freud vai notar que em diversos tratamentos o paciente trata o médico da mesma forma que, em suas palavras, trata suas “representações aflitivas”. Freud imagina que isso deva ser interpretado ao paciente da mesma forma que outros conteúdos.

Observe que os problemas levantados até agora se dissipam no conceito de transferência, desde que ele não seja imaginado dentro de um modelo temporal. Não é lá como aqui, é aqui como aqui. O que é produzido como fala sobre o passado, é vivido na transferência. Desta forma não temos mais os problemas técnicos levantados até aqui, pois ambos os fatos são verificáveis em consultório. O modelo aqui fica mais limpo e mais simples.

Esse é um dos pontos centrais para mim do livro. Mas Freud não vai encarar a transferência dessa forma. Inicialmente será uma forma de resistência, mas nunca deixará de ser uma forma de repetição. E dos dois modelos - o da ab-reação e o da transferência - vão conviver paradoxalmente na obra freudiana.

O outro ponto importante é o conceito de recalque - de que existe alguma coisa que não está dita no discurso e que é importante, e que de certa forma, a transferência é o seu retorno. Freud como está preso ao modelo da ab-reação obviamente vai dizer que o que retorna é um trauma do passado, mas eu prefiro, por questões de técnica, colocar que a transferência é o seu retorno. Esse ponto vai precisar do advento da teoria da fantasia para que se tenha uma melhor visualização da sua evolução teórico-clínica.

Esses dois pontos - transferência e recalque sãos os mais importantes dessa obra magnífica, e termino essa série com uma frase do Strachey sobre a mesma:

“Um dos principais atrativos do presente volume é que ele nos permite rastrear os primeiros passos do desenvolvimento desse instrumento. O que ele nos relata não é simplesmente a história da superação de uma série de obstáculos; é a história da descoberta de uma série de obstáculos a serem superados.” 
James Strachey

 

 

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias.

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